sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Maria Alice Campos-Freire é uma das 13 avós do Conselho das Avós Nativas, um grupo de mulheres dedicado a promover paz e conhecimento por meio da sabedoria indígena. Campos-Freire  é do Brasil, onde é madrinha da Comunidade de Santo Daime Céu do Mapiá e fundadora do Centro de Medicina da Floresta. Em novembro de 2010, ela falou no Conselho da Terra e do Espírito em Portland, Oregon, uma palestra da qual este artigo foi adaptado.




NOVE LINGUAS DIFERENTES, APENAS UMA VOZ

"Quando eu olho para dentro de meu coração e penso nas próximas gerações, eu me pergunto: “Qual a principal semente que eu posso plantar em seu nome?” Esta semente é paz. Isso é também o que nos move, avós, a cruzar o planeta em todas as direções. Quando nos encontramos, nunca havíamos nos visto antes, e viemos de quatro direções. Nós falávamos sobre tudo que nos importa no mundo: destruição da natureza, perseguição, opressão de tradições, das medicinas e terras sagradas. Por meio disso, nós descobrimos que, apesar de falarmos nove línguas diferentes, tínhamos apenas uma voz.

ASSUMINDO A RESPONSABILIDADE

A humanidade está cheia de feridas profundas e todo mundo se sente mais confortável ao pensar que o outro é responsável pelas feridas que eles mesmos carregam. Esta é uma roda que nunca para de rodar: se ninguém se responsabilizar, então ela continuará a rodar eternamente. E é isso que estamos fazendo.

Nós realmente precisamos parar essa roda, esse carma, porque é tempo de realização das profecias. Nós dizemos profecias, mas há somente uma: é tudo sobre paz, por causa do que aconteceu há muito tempo que quebrou a harmonia plantada pelo Criador. Houve um desequilíbrio, uma pessoa querendo ser mais do que a outra, querendo ter mais do que a outra. É muito antigo e não podemos culpar outra pessoa pelas amarguras que carregamos, porque todos nós temos passado por tantas vidas diferentes: estivemos em muitos lugares diferentes, tribos, culturas; somos aquele que mata e aquele que é morto; temos sido tudo isso. Agora é o fim. Agora precisamos concordar. Precisamos perdoar nós mesmos primeiro e uns aos outros depois e eliminar este peso, porque ele é muito antigo e não é o que queremos deixar para nossas crianças, para nossos netos.

NÓS SOMOS A NATUREZA

Nós queremos reparar o que fizemos, todo o estrago que nós seres humanos causamos à natureza, a nossa própria natureza. Quando eu falo sobre natureza, você pensa em outra coisa, mas nós somos natureza: nós somos água, nós somos fogo, nós somos ar, nós somos terra. Eu olho para a natureza ao meu redor, para o reino vegetal, o reino fungi, as águas, o mar, os rios, a floresta, os ventos, os pássaros, os animais. Quando eu olho para a natureza desta maneira, eu posso ver no espelho, eu posso ver que a mesma beleza existe em mim e nos meus irmãos e irmãs. Nós realmente precisamos superar o impedimento que nos bloqueia e abraçar tudo. Essa é a única semente boa que podemos plantar para o futuro, para nossas crianças.

RESGATANDO NOSSAS MEMÓRIAS

Povos nativos estão sendo deslocados, mas ainda encontramos a floresta lá, medicinas tradicionais ainda existem e podem curar todas essas terríveis doenças que as pessoas têm. Essas doenças foram criadas por este desequilíbrio, este desequilíbrio que existe  nas pessoas. Elas perderam suas memórias, suas conexões com seus propósitos. Eles não sabem o que eles estão fazendo com a terra, e eles estão transformando tudo isso em feridas. O meio ambiente está sendo destruído por todos tipos de coisas, incluindo produtos químicos e bombas.

A semente da guerra também está lá; cada vez que você quer julgar seu vizinho, acusar alguém, culpar o outro, responsabilizar o outro por aquilo que está errado em suas próprias vidas. É porque não nos responsabilizamos. Quando a floresta é destruída, em um dia ou dois uma nova floresta cresce espontaneamente. Esse é um grande ensinamento para nós: a natureza tem essa capacidade de se recuperar de qualquer destruição. Esta é a mensagem da vida. Você não pode matar a vida, você não pode matar o espírito; o espírio é eterno. A memória é eterna, nós somente precisamos voltar e procurar e nós vamos achar.

Essas são coisas simples, histórias básicas, mas vivemos de coisas básicas: nós ainda comemos, bebemos, respiramos. Essa a maneira que vivemos; não podemos viver de nenhum outro jeito.




NÓS SOMOS TODOS DA MESMA TRIBO

Então é por isso que aqui estamos: nós somos todos da mesma tribo. Isso é muito bonito, mas também muito sério – quando dermos esta semente para nossas crianças, temos que fazer isso do jeito certo. Nós precisamos curar nossos corações e as diferenças que ainda carregamos. O tempo está muito avançado. A natureza nos mostra por meio de tufões, mudanças climáticas e outras coisas que estão acontecendo. Então, quando nós vamos achar aquela direção? Isso não é muito difícil, porque as antigas tradições nativas carregam suas maneiras e são muito parecidas em todo o mundo. Elas carregam as orações. Nós somente precisamos voltar a nossa fonte, porque todos nós temos esta fonte. Não há ninguém órfão perante o Criador; todos têm pai/mãe Criador. Nós somente precisamos procurar dentro de nós a nossa imagem. Isso é o que as medicinas sagradas tradicionais protegiam. E agora elas se tornam disponíveis por causa da consumação das profecias. Agora pessoas encontram uns e outros para alcançar os últimos detalhes desta consumação. O tempo está aqui. "